English, August — a clássica obra independente indiana de 1994, dirigida por Dev Benegal e adaptada do romance de Upamanyu Chatterjee, regressa às salas de festival numa versão restaurada que sublinha o papel inesperado das fitas DAT na preservação do som e o desafio de reconstruir um filme cujo negativo se perdeu.
Da quase perda ao restauro: como o filme foi reconstruído
A restauração de English, August foi obrigatória porque o negativo da câmara tinha-se deteriorado irreversivelmente; só existiam duas cópias de 35mm sobreviventes e mais nada do material original. Uma dessas cópias foi a que o realizador guardou e doou, a outra estava no arquivo oficial do cinema indiano.
Face a essa escassez de material, a equipa da Film Heritage Foundation comparou as duas cópias e trabalhou a partir delas. O restauro digital decorreu no laboratório L'Immagine Ritrovata, em Bolonha, com Dev Benegal a acompanhar o processo à distância a partir de Nova Iorque.
«Quando vi o negativo da câmara, já estava derretido. Estava em péssimas condições.» — Shivendra Singh Dungarpur
O som que salvou o filme e a atualidade da história
O elemento decisivo da reconstrução foi o arquivo de áudio: em 1994 foram gravadas fitas DAT que Dev Benegal manteve no seu arquivo pessoal; essas fitas permitiram obter unmixes e pistas que os técnicos puderam recuperar, algo raro num restauro a partir de cópias. O trabalho de restauro de som envolveu o regresso ao estúdio do responsável de som original e a colaboração de engenheiros para recompor as faixas.
Além do som, a cor foi definida a partir de testes feitos pelo director de fotografia Anoop Jotwani e depois aplicada ao resto do filme. Rahul Bose, protagonista do filme, também participou em parte do processo de restauração, vindo a ver o material já em reconstrução.
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Perguntas Frequentes
Quando e onde vai ser apresentada a restauração de English, August?
A restauração de English, August estreia na edição do festival de Veneza, depois de ter sido completada no laboratório L'Immagine Ritrovata em Bolonha. O projecto da Film Heritage Foundation reuniu material de duas cópias de 35mm e as fitas DAT de 1994, permitindo que a versão restaurada venha agora ao público de festival.
Como é que as fitas DAT ajudaram na reconstrução do som do filme?
As fitas DAT de 1994, preservadas por Dev Benegal, foram fundamentais: English, August recebeu a partir dessas fitas unmixes que permitiram refazer as pistas de áudio. O som original havia sido digitalmente gravado por Vikram Joglekar e a existência dessas fitas possibilitou uma restauração muito mais próxima do aspeto e timbre pretendidos na altura.
Que materiais de imagem existiam para o restauro de English, August?
Para o restauro houve apenas duas cópias de exibição em 35mm: uma guardada por Dev Benegal e doada à Film Heritage Foundation, e outra preservada pelo arquivo nacional de cinema da Índia (NFDC-National Film Archive of India). O negativo da câmara havia-se deteriorado, pelo que estas duas cópias foram o ponto de partida para a reconstrução visual.
Quem participou tecnicamente no restauro de English, August?
O restauro contou com a Film Heritage Foundation como coordenadora e foi efectuado no laboratório L'Immagine Ritrovata, em Bolonha. Técnicos de som que trabalharam originalmente no filme, incluindo Vikram Joglekar e o engenheiro Satish P.M., participaram no processo de recuperação das faixas a partir das fitas DAT.
Por que razão English, August continua a ser considerado relevante hoje?
English, August mantém relevância porque, desde a sua estreia em 1994 e sendo adaptado do romance de 1988 de Upamanyu Chatterjee, explora a alienação de uma geração em transição. A restauração realça essa temática num contexto onde a experiência de isolamento mudou com telemóveis e redes sociais, tornando o filme reconhecível a novas audiências.
Inês Ferreira