Anuparna Roy — a realizadora indiana está a regressar ao Festival de Veneza com Lovers in the Blue Night, uma narrativa que amplia o enquadramento do seu cinema para a cidade e os fluxos migratórios. O filme estreia na secção Horizons e chega um ano depois da sua longa‑metragem de estreia, Songs of Forgotten Trees, ter marcado a sua estreia internacional.
Da memória pessoal a quatro vidas em movimento
Roy partiu da lembrança de Ameena, uma mulher da sua região natal que foi trabalhadora em regime de servidão, para desenhar a protagonista e a rede de relações do filme. A história começou como um impulso pessoal e evoluiu para um painel mais amplo: agora são quatro migrantes a atravessar a cidade e a procurar laços que os façam sentir‑se em casa.
A produção de Lovers in the Blue Night foi, segundo a realizadora, mais profissional e sujeita a prazos e limitações que ela própria está a aprender a gerir; as vendas internacionais do filme estão a cargo da Parallax.
"Quando se está sozinho ou deslocado, até um pequeno gesto de intimidade pode começar a parecer enorme." — Roy
Desejo, trabalho e as geometrias da cidade
O filme coloca no centro personagens como Karim, um homem casado com Ameena mas que mantém um amante, Sukka, e explora como o desejo se cruza com condições económicas e hierarquias sociais. Roy quis evitar que a deslocação definisse totalmente os personagens, preferindo mostrar as suas contradições e afectos quotidianos.
Uma imagem deliberadamente política percorre a narrativa: Karim trabalha a produzir veneno para ratos e presta serviço em sociedades residenciais abastadas de Mumbai — uma cena inspirada numa pessoa que Roy viu em Andheri East — e o acto de regressar desse emprego para um beijo torna‑se, para a realizadora, um gesto revolucionário.
O que acha? Estava à espera desta abordagem de Anuparna Roy ao tema dos migrantes e do desejo? Para acompanhar mais, aceda à nossa editoria.
Perguntas Frequentes
Em que secção do Festival de Veneza estreia Lovers in the Blue Night de Anuparna Roy?
Anuparna Roy estreia Lovers in the Blue Night na secção Horizons do Festival de Veneza. O filme integra a competição Horizons, sucedendo ao seu longa‑metragem de estreia Songs of Forgotten Trees, que tinha trazido a Roy o prémio de melhor realizador nessa secção no ciclo anterior.
Sobre o que é Lovers in the Blue Night e quem são as personagens centrais?
Lovers in the Blue Night de Anuparna Roy segue quatro migrantes em Mumbai e centra‑se em Ameena, uma figura cuja história real inspirou o filme. Entre as personagens chave estão Karim, um homem casado que vive um amor escondido, e Sukka, o seu amante, cujo arco aborda castas, desejo e tentativas de libertação pessoal.
Como aborda Anuparna Roy a relação entre pobreza e intimidade no filme?
Anuparna Roy trata a pobreza como contexto e não como identidade total dos seus personagens, procurando uma linguagem empática. No filme, actos de carinho tornam‑se gestos políticos: a rotina de trabalho de Karim — a matar ratos em condomínios de classe alta, inspirada em observações feitas em Andheri East — é posta lado a lado com cenas de afecto.
Quem está a tratar das vendas internacionais de Lovers in the Blue Night?
Parallax está a assegurar as vendas internacionais de Lovers in the Blue Night. A gestão comercial pelo mercado internacional surge numa fase em que a realizadora descreve a produção como mais profissional e sujeita a prazos, diferenças que ela aponta como aprendizagem no seu processo criativo.
Que outros projectos tem Anuparna Roy em desenvolvimento?
Anuparna Roy tem em preparação In the Shadow in the Light, um romance sobre um casamento disfuncional inspirado parcialmente nos pais da realizadora, e um projecto sem título que explora a transição sexual de uma mulher. Estes títulos surgem depois de Songs of Forgotten Trees e de Lovers in the Blue Night.
Miguel Andrade