Diary of a Mad Old Man — a adaptação de Wayne Wang do romance de Jun'ichirō Tanizaki propõe uma leitura menos cáustica do original, deslocando a atenção da perversidade pessoal para questões de memória e doença. A mudança de tom transforma a natureza do conflito e compromete a frieza amarga que caracterizava o texto.
Como a adaptação altera o foco do romance
O argumento de Kelvin Wyles segue o esqueleto da narrativa de Tanizaki, mas reescreve a voz em primeira pessoa, atenuando a lucidez egoísta de Utsugi e amortecendo a natureza provocadora do conto. Sequências iniciais mantêm imagens de desejo problemático — voyeurismo, presentes caros e obsessões físicas — mas o registo emocional é mais contido.
A actualização para um presente ambíguo inclui pequenos detalhes contemporâneos, como o uso de vape entre personagens, e inventa episódios novos, por exemplo a relação de Utsugi com um corvo que traz papéis «preciosos». Essas adições visam humanizar, porém diluem a ironia e o humor negro do romance original.
«Mesmo sendo sentimental e dado às lágrimas — por mais virtuoso que isso possa soar — a minha natureza verdadeira é perversa e de coração gélido até ao extremo.»
Interpretações, cenografia e leitura contemporânea
A interpretação de Lily Franky, aos 62 anos, apresenta um Utsugi convincente na sua paralisia do lado esquerdo, sem recorrer a caricaturas físicas. Fan Bingbing aparece como Satsuko numa leitura menos manipuladora do que no livro, com um passado traumático amplificado por monólogos reflexivos.
O filme tira partido de cenários interiores — uma casa, um jardim e um bar de luxo — que situam a ação no distrito da Ginza, em Tóquio, e exploram um espaço quase claustrofóbico. A escolha formal aproxima a obra de filmes recentes que tratam de urgências sexuais na terceira idade e da representação da demência, numa linha com títulos como Teki Cometh, Familiar Touch e Queen at Sea.
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Perguntas Frequentes
O que é Diary of a Mad Old Man e quem o realizou?
Diary of a Mad Old Man é a adaptação cinematográfica do romance de Jun'ichirō Tanizaki realizada por Wayne Wang, o primeiro filme do realizador desde 2019. O roteiro é de Kelvin Wyles e a peça foi exibida nas Gala Presentations do Toronto Film Festival; a duração anunciada é de 119 minutos.
Quem interpreta Utsugi e Satsuko na versão cinematográfica?
Lily Franky interpreta Utsugi na nova versão, interpretando um homem idoso com paralisia do lado esquerdo, e Fan Bingbing assume o papel de Satsuko. A presença de Fan Bingbing foi destacada pela capacidade de criar fricções subtis em relações nipónico-chinesas no ecrã.
De que forma o filme altera a natureza do protagonista do romance?
A adaptação altera a voz de Utsugi ao suavizar a sua lucidez egoísta, substituindo grande parte da perversidade explícita do romance por elementos sentimentais e narrativas novas, como a relação com um corvo e indícios de demência tardia que reorientam a motivação do personagem.
Onde e quando foi apresentada a versão de Wayne Wang?
A versão de Wayne Wang de Diary of a Mad Old Man foi apresentada nas Gala Presentations do Toronto Film Festival e a revisão publicada referiu a exibição online em 3 de setembro de 2026. A selecção para a gala indica posicionamento de destaque no circuito de festivais.
Que tom e cenografia dominam o filme?
O filme privilegia interiores quase autónomos — casa, jardim e um bar fechado — situando a ação no Ginza, em Tóquio, e adotando um tom contemplativo. A estética densifica a sensação de clausura e reforça a leitura do filme como um estudo sobre memória e envelhecimento.
Diogo Costa