Paramount — o acordo fechado no âmbito da disputa de fusões transformou-se numa intervenção sem precedentes: além de condicionar a compra pretendida, impõe regras operacionais que podem alterar a forma como o estúdio produz e negocia conteúdo. Esta alteração deixa claro que o peso económico e cultural de Hollywood está a arrastar o sector para uma lógica de tutela pública.
O que o acordo exige à Paramount
O acordo de consentimento obriga a Paramount a cinco anos de supervisão, com metas formais de produção e compromissos sobre propriedade de lotes de estúdio. Entre as obrigações está a exigência de lançar pelo menos 30 filmes por ano nos EUA.
Há também cláusulas que determinam a criação de um órgão de fiscalização para redes de notícias associadas e a negociação separada dos contratos de canais por cabo da antiga Warner Bros. Discovery e da Paramount.
“O Governo americano nunca fez isto. Temos o Governo a intervir e a não perguntar ‘Como podemos evitar que vocês causem danos?’. Em vez disso, está a perguntar ‘Como podemos evitar que vocês sejam prejudicados?’. É uma mudança fascinante.” — Stephen Galloway
Por que houve intervenção política e qual o alcance
A intervenção partiu de temores políticos sobre a fuga de produção fora da Califórnia: o governador do Estado pressionou por uma resolução ante a ameaça de saída do estúdio, enquanto no Congresso se apresentou uma proposta bipartidária de incentivo federal ao cinema para travar a deslocação de filmes e empregos para o estrangeiro.
Exemplos de incentivos estaduais já vistos incluem o aumento de benefícios fiscais no Texas, com bónus para projectos “faith-based” e que exaltam a herança local, e declarações públicas de figuras como o senador Tim Scott sobre a necessidade de proteger empregos e investimento cultural.
O que acha? O que acha desta intervenção do Estado na indústria cinematográfica? Para acompanhar mais destações e análises, aceda à nossa editoria.
Perguntas Frequentes
O que obriga exactamente o acordo à Paramount?
A Paramount fica sujeita a cinco anos de monitorização e compromissos operacionais, incluindo a obrigação de lançar pelo menos 30 filmes por ano nos EUA. O acordo impõe também a manutenção de propriedade de lotes de estúdio e a instalação de um órgão de supervisão para redes de notícias como a CBS e a CNN.
Por que motivo os políticos intervieram no caso da Paramount?
A intervenção política ocorreu porque a Paramount ameaçou deixar a Califórnia, o que levou o governador do Estado a procurar uma resolução; paralelamente, no Congresso surgiu uma proposta bipartidária de incentivo federal ao cinema. A preocupação central foi proteger empregos locais e evitar a transferência de produção para o estrangeiro.
Qual foi o papel de David Ellison nesta negociação?
David Ellison, CEO da Paramount, pretendia avançar com a aquisição sem condições mas acabou por aceitar certas intrusões estatais como preço pelo aumento de escala. Durante essa semana histórica, Ellison participou em eventos públicos de alto perfil, incluindo um jantar de Estado a 24 de setembro.
O acordo prevê metas adicionais se houver um incentivo federal?
O texto do acordo exige à Paramount a negociação de contratos separados e prevê que a empresa terá de quadruplicar a sua produção nos EUA caso um subsídio federal venha a ser adoptado, ligando explicitamente incentivos públicos a metas de volume de produção.
Como reagiu a indústria de Hollywood a estas medidas?
Unions e chefes de estúdio receberam os movimentos com sinais positivos, vendo-os como formas de preservar empregos. Observadores do sector notaram que, historicamente, Hollywood resistia à intervenção estatal, mas as recentes medidas estão a ser, em grande parte, bem vindas por atores e produtores preocupados com a queda do mercado local.
Inês Ferreira