Burgundy — o novo documentário de Michael Dweck e Gregory Kershaw sobre a cultura vinícola da Borgonha apresenta uma fotografia exuberante e momentos visuais deliciosos, mas mostra sinais de desgaste narrativo quando opta por transformar parte da história num romance juvenil, em vez de aprofundar as práticas e tensões da tradição vinícola.
Exuberância visual, substância inconsistente
Os realizadores mantêm a assinatura pictórica que ficou evidente em filmes anteriores, com composições de cena meticulosas e um trabalho de câmara que valoriza ambientes luxuosos, mesas de château e arroios de uva. A montagem de Pauline Gaillard acentua essa estética com cortes precisos, muitas vezes a acompanhar gestos de degustação ou pequenos rituais do quotidiano vitivinícola.
Apesar do requinte técnico, o ritmo perde determinação: o filme é frequentemente comparado aos trabalhos anteriores da dupla por recorrer a encenações estilizadas e a 8mm como apêndices quase brincalhões — escolhas que, neste caso, acabam por soar a preenchimento quando a matéria parece rarefeita.
"Tudo o que se segue é verdade. Exatamente como sonhámos."
Personagens que brilham, enredo que se desvia
O elenco humano inclui Bertrand Devillard, patriarca de uma propriedade com 160 anos de história, e os jovens Enzo Ferraroli e Céleste Kalis, cuja relação serve de fio condutor. Enzo surge como um aprendiz ambicioso que, por momentos, parece destinado a herdar a vinha, mas acaba por desistir do projecto e experimentar outras vias profissionais, como a maricultura.
A mudança de foco no último terço — quando a narrativa assume um registo de amantes separados que partem para Paris — reduz a atenção à própria Borgonha e às disciplinas do vinho que o documentário inicialmente prometia explorar. O filme foi exibido em Veneza, fora de competição, e tem uma duração oficial de 91 minutos.
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Perguntas Frequentes
O que mostra o documentário Burgundy e qual é o seu tom geral?
O documentário Burgundy mostra a vida em vinhas da região da Borgonha através de cenas muito pictóricas e personagens ligados ao comércio do vinho. Com 91 minutos de duração, o filme mistura retratos de produtores, trabalhos de adega e pequenas encenações, resultando num tom mais contemplativo e por vezes lúdico do que analítico.
Quem são os realizadores de Burgundy e que currículo trazem para este filme?
Burgundy foi realizado por Michael Dweck e Gregory Kershaw, equipa responsável por filmes anteriores como The Truffle Hunters e Gaucho Gaucho. Nesta produção francesa, ambos assinam também a câmara, contando com a edição de Pauline Gaillard e produção da Beautiful Development Company.
Quando e onde Burgundy foi estreado e em que secção esteve presente?
Burgundy estreou no Festival de Cinema de Veneza, exibido fora de competição na programação do certame. A apresentação veneziana decorreu durante a edição do festival e a cópia de proibição estava indicada como out of competition; a duração oficial do filme é de 91 minutos.
Quem são as figuras centrais do filme e que papéis representam?
Burgundy acompanha figuras como Bertrand Devillard, patriarca de uma propriedade vinícola com 160 anos de história, Enzo Ferraroli, um jovem trabalhador que aprende as rotinas da vinha, e Céleste Kalis, uma aprendiz de sommelier; estes personagens constituem o núcleo humano que atravessa o documentário.
Como têm sido as críticas ao filme em termos de narrativa e estilo?
Burgundy tem sido elogiado pela qualidade fotográfica e pela capacidade de encontrar matéria visualmente sedutora, mas também é criticado por perder complexidade narrativa, sobretudo quando opta por uma viragem romântica no último terço que dilui o foco na cultura vitivinícola da Borgonha.
João Martins